Domingo, Janeiro 03, 2010

dos domingos



é bem isso mesmo.

by liniers

Domingo, Dezembro 27, 2009

da arte de sentir

tinha os olhos de quem pedia lápis de cor emprestado pra disfarçar a dor que lhe atingia toda vez que resolvia desenhar. sabia que o tom exato iria alcançar misturando duas ou mais cores. rabiscava o papel, amassava quando não dava certo a mistura, já que os lápis deviam ser aquarelados para enfim formar o efeito desejado. o espiral do caderno perfurava agora a mão direita. mas não doía. mal sabia desenhar, confessava a si mesma. ah, melhor escrever. poesia pra que? pouco importa, eu gosto mais do que não desenho que daquilo que mal escrevo, afirmava agora. imaginava paisagens, gestos, sons, mas não conseguia atingir o tom exato. não era fácil atingir a cor da voz que lhe sussurrava agora calmamente. tom sobre tom. talvez fosse isso. e essa ponta, tinha que quebrar agora mesmo? estilete até serve quando se tem pulso firme. não lhe era o caso. girava o olhar ao redor, onde poderia estar... achei! como se o apontador sentisse o deleite das amarguras derramadas pelas pontas afiadas. e agora que ficou tudo borrado é que parece fazer sentido. o fato é que isso ela já sentia, há tempos...

Quarta-feira, Dezembro 23, 2009

do avesso do verso

se bem me lembro
é sempre daquele jeito
o ouvido cheio de agonia
o coração perdido em mágoa
e enquanto aguardo
me calo depois desse dia nublado
então.

Terça-feira, Dezembro 22, 2009

das férias e do feriado

longa a estrada:
o caminho acaba
sem que sobre asfalto.






"e disso tudo nasceu o amor..."

Segunda-feira, Dezembro 21, 2009

da vizinha no bar

e ele pensava
em como ela era bela
e lembrava sempre
de como ela corria
e passava por aqui
quando lhe via de longe
e quando vinha pra perto
lá vai ela outra vez
menina apressada
dos passos miudos
lá vem ela, ainda bem
de repente
desapareceu
parou
desaconteceu
só não desfaleceu
porque a casa dela
era aquela ao lado


- viu?





"você não me diz nada
mas eu digo pra você..."

Sábado, Dezembro 05, 2009

quarto dezembro

no meu quarto o dezembro ficou
um pouco mais de três vezes trezentos e sessenta e cinco dias...
em noites sem estrelas, em setembros, agostos, janeiros, marços,
sais, faróis, quinzes, carnavais, férias.
o mês doze, um pouco mais doce, embora comece com dezena,
agora entendo porque não pode ser mais dez:
cinco mais cinco não resulta no décimo segundo mês do ano.
às três da tarde marco o quarto dezembro preso aqui.
se é que alguém me entende...



Domingo, Novembro 29, 2009

Carta ao carteiro

Querido entregador de cartas,


Até agora me recordo do teu sorriso simpático. Embora não estivesses em teu horário de trabalho, ontem fiquei esperando que me entregasses qualquer coisa, nem que fosse uma carta de cobrança. Acho que é força do hábito. Mas sorristes pra mim e eu ganhei o dia.

Talvez não saibas a importância que tens e a alegria que forneces quando pontualmente passas todos os dias e entregas o que te foi designado. Ao menos para mim é suficiente tua presença rápida e diária. Ao te ver passar de bicicleta ou mesmo caminhando por estas ruas quentes, sinto vontade de acenar para ti ou te chamar para conversar, sobre o clima, sobre as pessoas que visitas ou sobre o tempo em que as pessoas se correspondiam mais através de palavras escritas em papeis.

Quando me cumprimentas ou quando somente passas por mim, fico imaginando se não recebes nenhuma correspondência. Quando recebes, penso em como deve ser separar a própria cartinha ou mesmo a conta mensal. Queria eu poder ter a sorte de separá-las ao menos uma vez e te entregar pessoalmente, só para que entendesses como me sinto e para tentar imaginar como deve ser o trabalho que fazes.

Tenho pensado bastante em ti, aliás. Sempre calado e sozinho, sempre distante e ao mesmo tempo tão presente. Algumas vezes te vejo passar de longe à noite. Sinto vontade de conhecer melhor tua família, saber do que gostas. Já sei que viestes da praia.

Então lembrei que o poeta era teu amigo. Lembrei que andavam juntos pela areia, conversando e trocando poemas amigos. E eu senti inveja. E quis poder te escrever um poema, te dedicar um instante do meu corrido tempo só para demonstrar meu afeto. E talvez até esperar por uma resposta tua, embora eu já imagine que tampouco irás me responder.

Agora me resta a espera pelas próximas correspondências, as mesmas cobranças... e me anima a ideia do reencontro, ainda que mal saibas quem sou.

Por fim, quero lembrar-te que, por mais que eu não esteja sempre por perto, ficarei a tua espera quando da minha presença. Se precisares e se assim confiares, tenho para ti confidências que nenhuma correspondência mereça guardar.

Abraços e sorrisos meus para ti.