é bem isso mesmo.
by liniers
tinha os olhos de quem pedia lápis de cor emprestado pra disfarçar a dor que lhe atingia toda vez que resolvia desenhar. sabia que o tom exato iria alcançar misturando duas ou mais cores. rabiscava o papel, amassava quando não dava certo a mistura, já que os lápis deviam ser aquarelados para enfim formar o efeito desejado. o espiral do caderno perfurava agora a mão direita. mas não doía. mal sabia desenhar, confessava a si mesma. ah, melhor escrever. poesia pra que? pouco importa, eu gosto mais do que não desenho que daquilo que mal escrevo, afirmava agora. imaginava paisagens, gestos, sons, mas não conseguia atingir o tom exato. não era fácil atingir a cor da voz que lhe sussurrava agora calmamente. tom sobre tom. talvez fosse isso. e essa ponta, tinha que quebrar agora mesmo? estilete até serve quando se tem pulso firme. não lhe era o caso. girava o olhar ao redor, onde poderia estar... achei!
Querido entregador de cartas,
Talvez não saibas a importância que tens e a alegria que forneces quando pontualmente passas todos os dias e entregas o que te foi designado. Ao menos para mim é suficiente tua presença rápida e diária. Ao te ver passar de bicicleta ou mesmo caminhando por estas ruas quentes, sinto vontade de acenar para ti ou te chamar para conversar, sobre o clima, sobre as pessoas que visitas ou sobre o tempo em que as pessoas se correspondiam mais através de palavras escritas em papeis.
Quando me cumprimentas ou quando somente passas por mim, fico imaginando se não recebes nenhuma correspondência. Quando recebes, penso em como deve ser separar a própria cartinha ou mesmo a conta mensal. Queria eu poder ter a sorte de separá-las ao menos uma vez e te entregar pessoalmente, só para que entendesses como me sinto e para tentar imaginar como deve ser o trabalho que fazes.
Tenho pensado bastante em ti, aliás. Sempre calado e sozinho, sempre distante e ao mesmo tempo tão presente. Algumas vezes te vejo passar de longe à noite. Sinto vontade de conhecer melhor tua família, saber do que gostas. Já sei que viestes da praia.
Então lembrei que o poeta era teu amigo. Lembrei que andavam juntos pela areia, conversando e trocando poemas amigos. E eu senti inveja. E quis poder te escrever um poema, te dedicar um instante do meu corrido tempo só para demonstrar meu afeto. E talvez até esperar por uma resposta tua, embora eu já imagine que tampouco irás me responder.
Agora me resta a espera pelas próximas correspondências, as mesmas cobranças... e me anima a ideia do reencontro, ainda que mal saibas quem sou.
Por fim, quero lembrar-te que, por mais que eu não esteja sempre por perto, ficarei a tua espera quando da minha presença. Se precisares e se assim confiares, tenho para ti confidências que nenhuma correspondência mereça guardar.
Abraços e sorrisos meus para ti.